sexta-feira, 26 de maio de 2017

Trekking Rio dos Couros – Cachoeira do Segredo – São Jorge/GO


   
Integrantes:
Alexandre Manzan
Tatá
Bruno Dornelas
Odilon
Guilherme Gonçalves
Beto Lamboglia




Dentre as inúmeras atrações da Chapada dos Veadeiros, faltava-me conhecer a cachoeira do Segredo, uma das mais belas da região. Tinha ouvido falar de uma travessia ligando o rio dos Couros a essa cachoeira. Achei interessante a ideia desse trekking e pus-me a vasculhar a internet a fim de baixar o tracklog de alguém que já o havia feito. Encontrei o tal trecho, mas, por querer terminar o trekking em São Jorge/GO, abri o Google Earth e confeccionei o trecho final ligando a cachoeira do Segredo à essa vila.
Após acionar os amigos e fixar a data, zarpamos dia 19 de maio para São Jorge. Como as duas cachoeiras ficam em lugares bem distintos, realizamos uma engenhosa logística para que, ao final da travessia, os carros estivessem em São Jorge prontos para nosso retorno a Brasília.

Iniciamos o trekking cruzando as cataratas dos Couros exatamente às 11h30min do dia 20 de maio. Seguindo o tracklog que havia baixado, com exceção de alguns trechos de rasga-mato, não tivemos problemas para chegar ao vale do rio que deságua na cachoeira do Segredo, onde pretendíamos pernoitar e tomar a garrafa de vinho que cuidadosamente carregávamos. 

Uma forte chuva se aproximava enquanto o sol se punha. Erroneamente insisti para que seguíssemos um pouco mais a fim de termos que percorrer um trecho menor no dia seguinte.


 

Com a chuva caindo, o relevo escarpado e a pouca visibilidade noturna, bati cabeça para achar a “rota” em meio à saroba! Já cansados e ensopados, encontramos um oportuno descampado, onde montamos acampamento. 
Mesmo com uma insistente chuva, obtivemos êxito em cozinhar nosso macarrão e degustá-lo acompanhado de boas risadas e do tão desejado vinho tinto.

Apesar de saber onde nos encontrávamos no mapa, não imaginava a belíssima vista que teríamos ao despertar. Acomodados no platô superior da Cachoeira do Segredo, deliramos ao sair de nossas barracas e nos depararmos com um lindo vale. Tomamos café da manhã e despencamos ladeira abaixo em direção à Cachoeira do Segredo.
Posso dizer que conheço um bom número de cachoeiras, mas a do Segredo me surpreendeu. Além da grandeza, as formações rochosas dessa cachoeira dão um belíssimo efeito na queda d’água.

 

Após um banho revigorante, seguimos para a parte final de nosso trekking. Subimos pela crista de uma serra à direita da cachoeira do Segredo, o que nos permitiu encontrar o rio São Miguel quase no ponto onde o cruzaríamos e subiríamos em direção ao Mirante de São Jorge.
Antes de cruzar o rio, porém, após passar por um arbusto, percebi uma mancha marrom em meu braço esquerdo. 

Ao analisar com cuidado, percebi que se tratava de uma nuvem de carrapatos microscópicos, o que me fez entrar em desespero só de pensar na coceira que se desencadearia nos dias seguintes. Esforcei-me para eliminá-los de meu braço, mas sabia que algumas centenas deles já se encontravam em marcha militar em direção às minhas partes menos expostas! Paramos no Rio São Miguel para lanchar e tentar afogar os malditos carrapatos. 
Mas, ao pegar minha calça para vesti-la novamente, notei uma colônia dos bichinhos ganhando território rumo ao zíper. Com muito esforço, sacudi a calça violentamente pelos ares na esperança de acabar com a invasão (ou diversão) dos malditos carrapatos. Por precaução, não vesti mais a calça.
  
  
Chegamos a São Jorge às 18h30min. Cansados, mas felizes, iniciamos nossa recuperação tomando algumas cervejas no bar do Pelé. Como o cansaço era grande, resolvemos estender o plano, o que gerou algumas cenas hilárias ao final da noite. Embalados pela “Chapadeira”, Guilherme e Odilon dançaram uma espécie de valsa sertaneja no já vazio centrinho de São Jorge.

No dia seguinte, de volta à rotina, os primeiros sinais da batalha que eu julgava vencida contra os carrapatos surgiram. Dezenas de caroços vermelhos espalhados por meu corpo não me deram sossego. Tornei-me um coçador ambulante. Enquanto aliviava uma coceira no braço, outra me atordoava nas “partes baixas”. Irritado, tive a impressão de ouvir os microscópicos carrapatos sussurrarem em meu ouvido:
“Somos pequenos, mas somos muitos”.      

Gratidão aos meus amigos.
Manza

1º dia
20/05/2017
Dist: 21,6km
Tempo: 5h25’
Asc: 367m

2º dia
21/05/2017
Saída às 09:30
Dist: 22,9km
Tempo: 5h08’
Asc: 892m


sábado, 8 de abril de 2017

Indomit Pedra do Baú - lost in the woods


Na minha atual condição de vida, considero um grande esforço treinar para uma prova. Além das incontáveis e dolorosas sessões de treinamento, administro minha vida familiar, a vida profissional e minha paciência para realizar tudo isso em uma cidade caótica.  
Às vésperas do Indomit Pedra do Baú, fora o cansaço físico, contabilizava o dispêndio de tempo e dinheiro gastos até então. Apesar de todos esses fatores nem tanto positivos, continuo achando que vale a pena. 
No dia 31 de março deste ano, desembarquei em São Bento do Sapucaí - SP (local da prova) com a consciência tranquila em relação ao que eu poderia ter treinado. Procurando por um local onde tomar um café, fui gentilmente orientado por um senhor a experimentar a padaria Santo Pão, estabelecimento no qual, saboreando um delicioso café local, elaborei minha tática para correr os 21 quilômetros.    
Encantado com o clima bucólico e simpático da pequena cidade, segui, no dia seguinte, para a largada.
Como de praxe, esquentei minhas articulações com um pequeno trote próximo à praça central. Após quase 27 anos forçando minhas estruturas em provas de todos os tipos, meu tornozelo esquerdo (remendado depois de um acidente em 1997) não se comporta tão bem como antes. Por conta disso, larguei com um ritmo mais conservador para dar tempo ao meu companheiro de lutas de se lubrificar!
Segui em um grupo de quatro atletas até próximo ao quilômetro 5, onde iniciava a maior subida da prova. A partir de então, coloquei meu plano em prática e ataquei. A ideia era tentar abrir o máximo que pudesse a fim de poder ter uma margem para administrar a prova ao final. 
Logo no início da subida, percebi que estava sendo seguido por um cachorro preto que aparentava-se com um "dingo australiano". Alguns quilômetros se passaram e pude perceber que havia aberto uma boa vantagem para o segundo colocado, mas o cachorro preto continuava ao meu lado. Passando por retardatários das outras distâncias que haviam largado antes da minha, fiquei impressionado em ver que o cachorrinho preto seguia firme ao meu lado, sem se distrair com os outros atletas que íamos cruzando. 
Seguimos então. Eu, executando meu plano, e o cachorro preto, a quem eu passei a chamar de "Lost" - nome que posteriormente cairia como uma luva! 
Repetidamente, o lost me ultrapassava e se posicionava em minha frente, o que acabava me atrapalhando a correr. Diante disso, eu empurrava-o levemente para frente, mostrando que ele deveria correr ou do lado ou atrás. Custou-me alguns tropeções até ele entender que deveria correr atrás de mim. Contudo, não demorou muito para que eu tropeçasse novamente, desta vez por conta de Lost se atrapalhar com meu calcanhar! 
Aproximadamente no quilômetro 10, o percurso começava a descer de volta à chegada. Parei para tomar água em um posto de abastecimento e segui firme até chegar a uma bifurcação dois quilômetros à frente. Neste ponto, avistei duas placas que indicavam as direções a serem seguidas pelos corredores dos 50 quilômetros e dos 30. Indaguei ao staff por qual direção deveria seguir quem estivesse correndo os 21 quilômetros, momento em que ele me respondeu:
- 21 quilômetros? Por aqui não passa essa distância. Você errou o caminho!
Uma sensação de indignação e incredulidade me preencheu de imediato. 
- Não é possível. Eu murmurava desolado.
Completamente desmotivado com a situação, retornei pelo caminho que havia passado a fim de tentar encontrar o local onde deveria ter entrado. Em minha cabeça só se passavam os treinos que tinha realizado e todo o comprometimento com aquele dia.
Chegando no ponto de abastecimento onde tomara água, notei que uma placa sinalizando a direção dos 21 quilômetros havia sido fixada após minha passagem. Um tanto quanto nervoso indaguei ao staff por qual razão ele não tinha colocado a placa antes?
- Desconcertado com a situação, ele respondeu que não pudera, pois estava "ocupado"!
Devo ter perdido uns vinte minutos ou mais com o erro da organização. Minha prova mudou completamente. A partir do momento em que soube que estava no percurso errado, passei a correr desmotivado. Não havia mais sentido em fazer força. Finalizaria a prova apenas para completar o percurso.
Sei que falhas assim acontecem, mas é frustante passar por tal situação. 
É vida que segue! 
Restava a mim contabilizar os frutos da viagem. Além da incrível paisagem da região da Pedra do Baú, tive o privilégio de ter a companhia de "Lost" correndo por trilhas maravilhosas. Aproveitando o ensejo, acho um egoísmo absurdo criar um cachorro em apartamentos que mal cabem os próprios donos. É uma condenação perpetua a um animal que precisa de espaço e liberdade - exatamente como o "Lost" tem na região de São Bento. Sentirei saudades desse cão tão livre e certo de si.

                                                                       Manza


 

terça-feira, 28 de março de 2017

Logical Song


Na última quinta-feira, 23 de março, se apresentou em Brasília o vocalista do Supertramp (Roger Hodgson). Apesar de eu não ser da mesma geração que a banda, escutei bastante suas músicas em uma época muito significativa de minha vida. 

Devido ao "cômodo" cansaço da rotina, não fiz muito esforço para ir ao show. Contudo, dias antes, meu amigo Geleia (com quem estudei na referida época) me ligou dizendo que havia comprado os ingressos. Não tive como recusar. Fomos. Apesar da acústica ter deixado a desejar, curtimos muito o "showsaço" do coroa! Em várias músicas, me peguei "vivendo" novamente ótimos momentos dos anos 80 e 90 (inarráveis...). 
Coincidentemente, há um tempo, voltei a conviver com muitos amigos que conheci nesses anos.
Após o show, já em casa, abri o baú e marejei os olhos ao ver algumas fotos e lincá-las à época. Entre tantas, consegui escanear as que seguem nesse post.

Abaixo, segue a letra da música que escutei indo, voltando ou fazendo alguma coisa muito boa naquela época...
Hoje, aos 42 anos, entendo o sentido da letra e me identifico completamente.

Valeu Geleia!
Valeu Supertramp!   




Logical Song - Supertramp

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle
Oh, it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh, joyfully
Oh, playfully, watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical
Oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh, clinical
Oh, intellectual, cynical
There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you, please, please, tell me what we've learned?
I know it sounds absurd
But, please, tell me who I am
Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal
Oh fanatical, criminal
Oh, won't you sign up your name?
We'd like to feel you're acceptable
Respectable
Oh presentable, a vegetable
At night when all the world's asleep
The questions run so deep
For such a simple man
Won't you please (won't you tell me?)
Please tell me what we've learned? (can you hear me?)
I know it sounds absurd
But please tell me who I am
Who I am
Who I am
Who I am
Composição: Rick Davies / Roger Hodgson

quinta-feira, 2 de março de 2017

"A Arte da Virilidade"

Forçando-me a sair de casa e "equilibrar" minha rotina, chamei o amigo Guilherme Gonçalves para fazer um "tour" de bike pelo Goiás. A ideia era repetir o que eu e outros parceiros costumávamos fazer em antigos carnavais. 
A fim de evitar o tumulto e risco desta data comemorativa, saímos uma semana antes. Largamos de Luziânia/GO, cidade do Guilherme, e seguimos para Cristalina iniciando uma volta de 480 quilômetros pelo interior do estado.

Finalizado o primeiro trecho da viagem, já instalado em uma discreta acomodação da cidade dos cristais, eu compartilhava com amigos e familiares algumas imagens e percepções do dia. Para tanto, usava meu pequeno aparelho de conexão com o mundo (virtual). Sim, meu celular. 
Após ler para Guilherme uma boa piada recebida por um dos inúmeros grupos de que faço parte, ainda por meio de meu celular, dei continuidade à leitura de um artigo que havia recebido de meu amigo Luis Hashimura sobre as consequências dos luxos e facilidades da era moderna na vida dos homens.
Em "The Art of Manliness", Brett and Kate Mckay (com citações retiradas do livro No Place for Grace, de T.J. Jackson Lears) descrevem as incríveis alterações ocorridas na personalidade dos homens após terem seus trabalhos braçais e diversões físicas trocados pela tecnologia.
Iniciando com uma estarrecedora estatística sobre o aumento de suicídios e casos de depressão nos EUA, os autores são extremamente eficientes em "lincar" e demonstrar algumas prováveis causas dessas mazelas.
Segundo o artigo, a setorização do trabalho, iniciado na Revolução Industrial, limitou muito a habilidade do homem. Paralelamente a este fenômeno, os bens e confortos gerados pela galopante evolução tecnológica transformaram, por completo, nossos hábitos.
Conforme lido no artigo, o que se pode avaliar sobre a evolução tecnológica é que, em tese, o que seria para aprimorar a vida do homem tem se mostrado um "tiro no próprio pé". 
Não há duvida de como evoluímos e o quanto essa evolução nos facilitou a vida. O problema, em meu entendimento, foi a dose e o espectro que esses "confortos" atingiram. Não há nada que façamos sem que utilizemos algum tipo de aparato tecnológico, o que diminui sobremaneira o essencial exercício de nossos sentidos e intuições.
       
"The man who gives himself up entirely to the service of his appetites, makes them grow and multiply so well that they became stronger than he"



Ao final do segundo dia de viagem, felizes com o desempenho de nossos quadríceps, procuramos uma lanchonete para repor parte das calorias perdidas. Interessante ressaltar que tal qual a fome que eu estava era minha urgência em saber a senha do maldito Wi-Fi! 
Necessidades supridas, achamos um pequeno hotel para o repouso do dia (com internet, é claro!).
Antes de dormir, em outra parte do artigo, li que, já no século 19, houvera um movimento contra a "overcivilization". Teoricamente, um movimento que visava frear as benesses do progresso, tendo como convincente argumento um sintoma da evolução tecnológica já sentido naquela época: a praga da neurastenia. 

Neurastenia
substantivo feminino
1. psicop perda geral do interesse, estado de inatividade ou fadiga extrema que atinge tanto a área física quanto a intelectual, associado esp. a quadros hipocondríacos e histéricos.

Esse movimento tinha um nome - the strenous life - e um protagonista: Theodore Roosevelt. O que Roosevelt pregava para combater a praga da neurastenia era a real necessidade de uma vida mais vigorosa. 
O que analiso no atual cenário é que, tendo como base o princípio do menor esforço, o homem assimilou os prazeres da vida moderna e, gradativamente, se enclausurou, deixando em segundo plano a vida ao ar livre.  
Verdade seja dita, ficar em casa debaixo da coberta assistindo às infinitas séries do Netflix e bisbilhotando a vida alheia nas redes sociais é, em parte, prazeroso. Porém, render-se a esse costume e anular-se de uma vida vigorosa, é, simplesmente, lamentável.
Seguindo nossa infusão pelo Goiás, saímos de Campo alegre em direção à Ipameri, onde tomaríamos o rumo norte. Havíamos pensado que a chuva fosse nos acompanhar durante a viagem, mas o sol fritou nosso caminho o tempo todo.

Chegando em Orizona, local onde dormiríamos no terceiro dia, barganhamos o último hotel da viagem sem muito nos preocupar com o Wi-Fi. Curiosamente, com muitos quilômetros rodados e belíssimas paisagens apreciadas, havíamos mudado consideravelmente nossos valores sensoriais. A satisfação passava a vir de uma realidade não-virtual. Sem perceber, deixava de lado o "zap" para aproveitar integralmente o momento. O meu celular retornava a sua função básica: realizar chamadas. 
Comentei, então, com o Guilherme sobre a satisfação que sentia com tão simples atividade.
É realmente impressionante o que uma bicicleta pode nos proporcionar.
Para finalizar nossa viagem, tínhamos 150 quilômetros com vento contra até Luziânia. Pensando no movimento que Roosevelt apoiara no século 19 (a call for a strenous age), finalizei o terceiro pão com manteiga, tomei uma xícara de café, amarrei meus chinelos velhos em minha bike e, juntamente com Guilherme, sumi motivado e confiante pela GO-010.  
Extenuados e mais felizes que quatro dias antes, chegamos no fim do dia à casa do Guilherme.
Retornando a Brasília, ao volante de meu carro, considerava a viagem que acabava de fazer. Qual a razão em sair pedalando centenas de quilômetros por quatro dias, sem apoio, portando somente uma troca de roupa e um par de chinelos?  
Lembrei-me, então, de um trecho no fim do artigo:

"...in a world that lacks inherent tests and challenges, you've got to create them on your own."
Por fim, assumo que continuarei a utilizar (com parcimônia) alguns confortos da modernidade, como, por exemplo, meu celular. Contudo, se um dia tiver que abandoná-lo, o farei sem problemas. Já não, posso dizer o mesmo de minha bicicleta!

"Keep close to Nature's heart...and break clear away, once in a while, and climb a mountain or spend a week in the woods. Wash your spirit clean."
John Muir, 1915



Tour do Goiás 2017
1º dia: Luziânia - Cristalina                         80km
2º dia: Cristalina - Campo Alegre de Goiás   110km
3º dia: Campo Alegre de Goiás - Orizona     145km
4º dia: Orizona - Luziânia                           150km

The Art of Manliness
Brett and Kate Mckay

http://www.artofmanliness.com/2016/12/21/call-new-strenuous-age/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+TheArtOfManliness+%28The+Art+of+Manliness%29&mc_cid=4f80938eb2&mc_eid=7943d91ae4

Agradecimentos:


Bike Brothers