sábado, 8 de abril de 2017

Indomit Pedra do Baú - lost in the woods


Na minha atual condição de vida, considero um grande esforço treinar para uma prova. Além das incontáveis e dolorosas sessões de treinamento, administro minha vida familiar, a vida profissional e minha paciência para realizar tudo isso em uma cidade caótica.  
Às vésperas do Indomit Pedra do Baú, fora o cansaço físico, contabilizava o dispêndio de tempo e dinheiro gastos até então. Apesar de todos esses fatores nem tanto positivos, continuo achando que vale a pena. 
No dia 31 de março deste ano, desembarquei em São Bento do Sapucaí - SP (local da prova) com a consciência tranquila em relação ao que eu poderia ter treinado. Procurando por um local onde tomar um café, fui gentilmente orientado por um senhor a experimentar a padaria Santo Pão, estabelecimento no qual, saboreando um delicioso café local, elaborei minha tática para correr os 21 quilômetros.    
Encantado com o clima bucólico e simpático da pequena cidade, segui, no dia seguinte, para a largada.
Como de praxe, esquentei minhas articulações com um pequeno trote próximo à praça central. Após quase 27 anos forçando minhas estruturas em provas de todos os tipos, meu tornozelo esquerdo (remendado depois de um acidente em 1997) não se comporta tão bem como antes. Por conta disso, larguei com um ritmo mais conservador para dar tempo ao meu companheiro de lutas de se lubrificar!
Segui em um grupo de quatro atletas até próximo ao quilômetro 5, onde iniciava a maior subida da prova. A partir de então, coloquei meu plano em prática e ataquei. A ideia era tentar abrir o máximo que pudesse a fim de poder ter uma margem para administrar a prova ao final. 
Logo no início da subida, percebi que estava sendo seguido por um cachorro preto que aparentava-se com um "dingo australiano". Alguns quilômetros se passaram e pude perceber que havia aberto uma boa vantagem para o segundo colocado, mas o cachorro preto continuava ao meu lado. Passando por retardatários das outras distâncias que haviam largado antes da minha, fiquei impressionado em ver que o cachorrinho preto seguia firme ao meu lado, sem se distrair com os outros atletas que íamos cruzando. 
Seguimos então. Eu, executando meu plano, e o cachorro preto, a quem eu passei a chamar de "Lost" - nome que posteriormente cairia como uma luva! 
Repetidamente, o lost me ultrapassava e se posicionava em minha frente, o que acabava me atrapalhando a correr. Diante disso, eu empurrava-o levemente para frente, mostrando que ele deveria correr ou do lado ou atrás. Custou-me alguns tropeções até ele entender que deveria correr atrás de mim. Contudo, não demorou muito para que eu tropeçasse novamente, desta vez por conta de Lost se atrapalhar com meu calcanhar! 
Aproximadamente no quilômetro 10, o percurso começava a descer de volta à chegada. Parei para tomar água em um posto de abastecimento e segui firme até chegar a uma bifurcação dois quilômetros à frente. Neste ponto, avistei duas placas que indicavam as direções a serem seguidas pelos corredores dos 50 quilômetros e dos 30. Indaguei ao staff por qual direção deveria seguir quem estivesse correndo os 21 quilômetros, momento em que ele me respondeu:
- 21 quilômetros? Por aqui não passa essa distância. Você errou o caminho!
Uma sensação de indignação e incredulidade me preencheu de imediato. 
- Não é possível. Eu murmurava desolado.
Completamente desmotivado com a situação, retornei pelo caminho que havia passado a fim de tentar encontrar o local onde deveria ter entrado. Em minha cabeça só se passavam os treinos que tinha realizado e todo o comprometimento com aquele dia.
Chegando no ponto de abastecimento onde tomara água, notei que uma placa sinalizando a direção dos 21 quilômetros havia sido fixada após minha passagem. Um tanto quanto nervoso indaguei ao staff por qual razão ele não tinha colocado a placa antes?
- Desconcertado com a situação, ele respondeu que não pudera, pois estava "ocupado"!
Devo ter perdido uns vinte minutos ou mais com o erro da organização. Minha prova mudou completamente. A partir do momento em que soube que estava no percurso errado, passei a correr desmotivado. Não havia mais sentido em fazer força. Finalizaria a prova apenas para completar o percurso.
Sei que falhas assim acontecem, mas é frustante passar por tal situação. 
É vida que segue! 
Restava a mim contabilizar os frutos da viagem. Além da incrível paisagem da região da Pedra do Baú, tive o privilégio de ter a companhia de "Lost" correndo por trilhas maravilhosas. Aproveitando o ensejo, acho um egoísmo absurdo criar um cachorro em apartamentos que mal cabem os próprios donos. É uma condenação perpetua a um animal que precisa de espaço e liberdade - exatamente como o "Lost" tem na região de São Bento. Sentirei saudades desse cão tão livre e certo de si.

                                                                       Manza


 

terça-feira, 28 de março de 2017

Logical Song


Na última quinta-feira, 23 de março, se apresentou em Brasília o vocalista do Supertramp (Roger Hodgson). Apesar de eu não ser da mesma geração que a banda, escutei bastante suas músicas em uma época muito significativa de minha vida. 

Devido ao "cômodo" cansaço da rotina, não fiz muito esforço para ir ao show. Contudo, dias antes, meu amigo Geleia (com quem estudei na referida época) me ligou dizendo que havia comprado os ingressos. Não tive como recusar. Fomos. Apesar da acústica ter deixado a desejar, curtimos muito o "showsaço" do coroa! Em várias músicas, me peguei "vivendo" novamente ótimos momentos dos anos 80 e 90 (inarráveis...). 
Coincidentemente, há um tempo, voltei a conviver com muitos amigos que conheci nesses anos.
Após o show, já em casa, abri o baú e marejei os olhos ao ver algumas fotos e lincá-las à época. Entre tantas, consegui escanear as que seguem nesse post.

Abaixo, segue a letra da música que escutei indo, voltando ou fazendo alguma coisa muito boa naquela época...
Hoje, aos 42 anos, entendo o sentido da letra e me identifico completamente.

Valeu Geleia!
Valeu Supertramp!   




Logical Song - Supertramp

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle
Oh, it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh, joyfully
Oh, playfully, watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical
Oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh, clinical
Oh, intellectual, cynical
There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you, please, please, tell me what we've learned?
I know it sounds absurd
But, please, tell me who I am
Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal
Oh fanatical, criminal
Oh, won't you sign up your name?
We'd like to feel you're acceptable
Respectable
Oh presentable, a vegetable
At night when all the world's asleep
The questions run so deep
For such a simple man
Won't you please (won't you tell me?)
Please tell me what we've learned? (can you hear me?)
I know it sounds absurd
But please tell me who I am
Who I am
Who I am
Who I am
Composição: Rick Davies / Roger Hodgson

quinta-feira, 2 de março de 2017

"A Arte da Virilidade"

Forçando-me a sair de casa e "equilibrar" minha rotina, chamei o amigo Guilherme Gonçalves para fazer um "tour" de bike pelo Goiás. A ideia era repetir o que eu e outros parceiros costumávamos fazer em antigos carnavais. 
A fim de evitar o tumulto e risco desta data comemorativa, saímos uma semana antes. Largamos de Luziânia/GO, cidade do Guilherme, e seguimos para Cristalina iniciando uma volta de 480 quilômetros pelo interior do estado.

Finalizado o primeiro trecho da viagem, já instalado em uma discreta acomodação da cidade dos cristais, eu compartilhava com amigos e familiares algumas imagens e percepções do dia. Para tanto, usava meu pequeno aparelho de conexão com o mundo (virtual). Sim, meu celular. 
Após ler para Guilherme uma boa piada recebida por um dos inúmeros grupos de que faço parte, ainda por meio de meu celular, dei continuidade à leitura de um artigo que havia recebido de meu amigo Luis Hashimura sobre as consequências dos luxos e facilidades da era moderna na vida dos homens.
Em "The Art of Manliness", Brett and Kate Mckay (com citações retiradas do livro No Place for Grace, de T.J. Jackson Lears) descrevem as incríveis alterações ocorridas na personalidade dos homens após terem seus trabalhos braçais e diversões físicas trocados pela tecnologia.
Iniciando com uma estarrecedora estatística sobre o aumento de suicídios e casos de depressão nos EUA, os autores são extremamente eficientes em "lincar" e demonstrar algumas prováveis causas dessas mazelas.
Segundo o artigo, a setorização do trabalho, iniciado na Revolução Industrial, limitou muito a habilidade do homem. Paralelamente a este fenômeno, os bens e confortos gerados pela galopante evolução tecnológica transformaram, por completo, nossos hábitos.
Conforme lido no artigo, o que se pode avaliar sobre a evolução tecnológica é que, em tese, o que seria para aprimorar a vida do homem tem se mostrado um "tiro no próprio pé". 
Não há duvida de como evoluímos e o quanto essa evolução nos facilitou a vida. O problema, em meu entendimento, foi a dose e o espectro que esses "confortos" atingiram. Não há nada que façamos sem que utilizemos algum tipo de aparato tecnológico, o que diminui sobremaneira o essencial exercício de nossos sentidos e intuições.
       
"The man who gives himself up entirely to the service of his appetites, makes them grow and multiply so well that they became stronger than he"



Ao final do segundo dia de viagem, felizes com o desempenho de nossos quadríceps, procuramos uma lanchonete para repor parte das calorias perdidas. Interessante ressaltar que tal qual a fome que eu estava era minha urgência em saber a senha do maldito Wi-Fi! 
Necessidades supridas, achamos um pequeno hotel para o repouso do dia (com internet, é claro!).
Antes de dormir, em outra parte do artigo, li que, já no século 19, houvera um movimento contra a "overcivilization". Teoricamente, um movimento que visava frear as benesses do progresso, tendo como convincente argumento um sintoma da evolução tecnológica já sentido naquela época: a praga da neurastenia. 

Neurastenia
substantivo feminino
1. psicop perda geral do interesse, estado de inatividade ou fadiga extrema que atinge tanto a área física quanto a intelectual, associado esp. a quadros hipocondríacos e histéricos.

Esse movimento tinha um nome - the strenous life - e um protagonista: Theodore Roosevelt. O que Roosevelt pregava para combater a praga da neurastenia era a real necessidade de uma vida mais vigorosa. 
O que analiso no atual cenário é que, tendo como base o princípio do menor esforço, o homem assimilou os prazeres da vida moderna e, gradativamente, se enclausurou, deixando em segundo plano a vida ao ar livre.  
Verdade seja dita, ficar em casa debaixo da coberta assistindo às infinitas séries do Netflix e bisbilhotando a vida alheia nas redes sociais é, em parte, prazeroso. Porém, render-se a esse costume e anular-se de uma vida vigorosa, é, simplesmente, lamentável.
Seguindo nossa infusão pelo Goiás, saímos de Campo alegre em direção à Ipameri, onde tomaríamos o rumo norte. Havíamos pensado que a chuva fosse nos acompanhar durante a viagem, mas o sol fritou nosso caminho o tempo todo.

Chegando em Orizona, local onde dormiríamos no terceiro dia, barganhamos o último hotel da viagem sem muito nos preocupar com o Wi-Fi. Curiosamente, com muitos quilômetros rodados e belíssimas paisagens apreciadas, havíamos mudado consideravelmente nossos valores sensoriais. A satisfação passava a vir de uma realidade não-virtual. Sem perceber, deixava de lado o "zap" para aproveitar integralmente o momento. O meu celular retornava a sua função básica: realizar chamadas. 
Comentei, então, com o Guilherme sobre a satisfação que sentia com tão simples atividade.
É realmente impressionante o que uma bicicleta pode nos proporcionar.
Para finalizar nossa viagem, tínhamos 150 quilômetros com vento contra até Luziânia. Pensando no movimento que Roosevelt apoiara no século 19 (a call for a strenous age), finalizei o terceiro pão com manteiga, tomei uma xícara de café, amarrei meus chinelos velhos em minha bike e, juntamente com Guilherme, sumi motivado e confiante pela GO-010.  
Extenuados e mais felizes que quatro dias antes, chegamos no fim do dia à casa do Guilherme.
Retornando a Brasília, ao volante de meu carro, considerava a viagem que acabava de fazer. Qual a razão em sair pedalando centenas de quilômetros por quatro dias, sem apoio, portando somente uma troca de roupa e um par de chinelos?  
Lembrei-me, então, de um trecho no fim do artigo:

"...in a world that lacks inherent tests and challenges, you've got to create them on your own."
Por fim, assumo que continuarei a utilizar (com parcimônia) alguns confortos da modernidade, como, por exemplo, meu celular. Contudo, se um dia tiver que abandoná-lo, o farei sem problemas. Já não, posso dizer o mesmo de minha bicicleta!

"Keep close to Nature's heart...and break clear away, once in a while, and climb a mountain or spend a week in the woods. Wash your spirit clean."
John Muir, 1915



Tour do Goiás 2017
1º dia: Luziânia - Cristalina                         80km
2º dia: Cristalina - Campo Alegre de Goiás   110km
3º dia: Campo Alegre de Goiás - Orizona     145km
4º dia: Orizona - Luziânia                           150km

The Art of Manliness
Brett and Kate Mckay

http://www.artofmanliness.com/2016/12/21/call-new-strenuous-age/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+TheArtOfManliness+%28The+Art+of+Manliness%29&mc_cid=4f80938eb2&mc_eid=7943d91ae4

Agradecimentos:


Bike Brothers

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Trekking Torres del Paine


*Sugestão de música para ler esse texto:
Move By Yourself - Donavon Frankeireiter

Após oito dias perambulando pelo Parque Nacional Torres del Paine, na confortável e moderna recepção das instalações "Las Torres", eu anotava as últimas considerações sobre a viagem. Observando o cappuccino quente que saía da máquina, ponderava o desconforto e sofrimento que havia passado até chegar àquele aconchegante ambiente. 
É nesse local em que a maioria das pessoas iniciam e finalizam o trekking pelo parque. 

A atmosfera da recepção lembrou-me de um antigo seriado que passava na televisão. Ao avistar o avião se aproximar da "Ilha da Fantasia", o anão "Tatu" gritava para o chefe tocando um sino ensurdecedor:
- Patrão, o avião, o avião...
Em uma análise paralela, as pessoas que desciam do tão esperado ônibus (assim como as que desciam do avião na "Ilha da Fantasia") chegavam à recepção do parque ansiosas para se desligarem de suas rotinas e deixarem se entregar ao devaneio em um dos locais mais bonitos e impressionantes do planeta.
No dia 30 de novembro de 2016, com uma mochila de 60l e 18 kg de peso, contendo tudo o que eu necessitaria para comer, dormir e vestir por duas semanas dando a volta em torno do Parque, eu era um dos que desciam do ônibus em busca de meu devaneio e desligamento.

Teria que que seguir à risca o plano de minha progressão, tendo em vista o cronograma ajustado em função das reservas nos acampamentos.
Meses antes, confabulando a viagem, sabia que o clima seria minha maior preocupação. Sem previsões certeiras e mudanças inesperadas, chove, neva, faz sol e venta muito na região do parque. Portava comigo algumas camadas de roupas que eu julgava serem suficientes para minha estada. Contudo, percebi que estava equivocado no momento em que duas senhoras chilenas entraram no ônibus que fazia o trajeto entre Puerto Natales e a entrada do parque e, ao sentarem na poltrona da frente, uma disse para a outra:
- Dios mio Rosita, Que calor!
Fazia 12º C e eu morria de frio.
Apesar da natural insegurança que me assolava, tinha boas razões para seguir com meu plano; sabia o que deveria fazer e também o que evitar.

Lia, pela segunda vez, o livro de Joe Simpson (La Mort Suspendue), no qual o autor conta sua inacreditável trajetória para retornar ao acampamento após ter quebrado uma perna no topo de uma montanha (Siula Grande) no Peru. Chocado com a perseverança de Simpson para "retornar à vida", reparei o marcador de página que levava. Minha mãe o havia me dado ao embarcar para uma de minhas primeiras viagens para competir (muitos anos atrás). Em sua dedicatória, ela dizia: "Saiba, você pode alcançar tudo que você quiser, basta acreditar. Boa viagem, dê o melhor de você que conseguirá o melhor resultado. Confio em você."
Era o que eu precisava de ouvir!
Desembarquei na portaria do parque e logo avistei as imponentes e famosas torres de granito que se destacam em meio aos escombros de rochas e pedras. Hipnotizado pela grandeza daquelas estruturas naturais, caminhei calmamente até o ponto onde montaria minha pequena moradia de pano. Estava, então, instalado no Acampamento Central. Dali iniciaria no sentido anti-horário minha volta em torno do Parque Nacional Torres del Paine, percorrendo o circuito "O", com um total aproximado de 130 quilômetros.     
Ao final do dia 30/11, enquanto preparava minha primeira refeição, uma garota se aproximou e me perguntou de onde eu era e se gostaria de subir com um grupo ao mirante das Torres para ver o sol nascer lá de cima. A caminhada até esse ponto é parte da "procissão" realizada por quem deseja percorrer totalmente o tradicional trekking. Achei a ideia interessante e marcamos de nos encontrar às 00h30min. 
Fui me deitar bem cedo, mas não preguei os olhos por conta da chuva que não parava. No horário combinado, vesti algumas camadas de roupa e meu impermeável e fui conferir se havia alguém no local combinado. Para minha surpresa, lá se encontravam a israelense Zeeve e os norte-americanos Cori e Mat, este último vestindo uma ridícula ceroula estampada com flores e calçando um tênis de skate. Um verdadeiro anti-herói, levando-se em consideração o contexto em que nos encontrávamos. Seguimos, então, pela trilha que serpenteava montanha acima. Não víamos nada além de quatro metros à frente. 
Logo, eu e os americanos nos distanciamos da israelense. Não achei que ela corresse algum risco seguindo sozinha um pouco atrás de nós. Porém, em meio ao som do vento patagônico, enquanto seguia concentrado no foco de minha lanterna, ouvi um grito ensurdecedor:
- Guyyyyss, heeelp me. Guyyyyss.
Sem falar nada, despencamos os três na direção em que vínhamos a fim de socorrer a israelense do que pudesse ser. Eu só imaginava uma possibilidade: puma! 
Ao encontrá-la com os olhos arregalados e em choque, perguntei o que havia acontecido. Apontando para trás, ela respondeu que um puma a seguia. Explicou que vira os reflexos da luz de sua lanterna nos olhos do puma. Pedimos a ela que se acalmasse e seguimos os quatro juntos. A partir de então, eu só conseguia pensar no maldito puma! Olhando para retaguarda uma vez mais, reparamos os dois olhos refletidos vindo atrás de nós, ocasião em que Zeeve gritou:
- Oh my god. There it is guys, I've told you. 
Foi quando notei que o reflexo nada mais era que o facho da lanterna de outras duas pessoas subindo a trilha em direção ao mesmo mirante! 
Caladinha e um pouco sem graça com o escândalo inútil, a israelense seguiu caminhando.
Chegamos às 04h00min no mirante das Torres, mas o dia só iria nascer às 05h00min, motivo pelo qual procuramos nos proteger do vento e da chuva embaixo de um grande bloco de pedra. 
Enquanto aguardávamos o alvorecer, dois ingleses juntaram-se a nós. A temperatura ambiente era de 5º C, mas com o vento a sensação térmica caíra para 0ºC. Não acreditei quando vi um deles de bermuda. Naquele desconforto, não havia muito o que conversar, mas os ingleses, com um típico sotaque carregado, iniciaram uma discussão:
- Hey mate, I'm fucking freezing up here.
- Yeah, me too. And I don't think this fucking weather is gonna change.
- Bloody rain!
- I'd rather be at the pub drinking a bloody beer.
- What the fuck we're doing here, then?
- Let´s get the hell out of here... 
E assim os ingleses se foram. Creio que para um "pub". 
A coloração do céu foi-se mudando e reparei que uma espessa névoa impossibilitaria qualquer chance de avistarmos as Torres. Não tardou muito para eu pensar em me juntar aos ingleses. E foi o que fizemos. Iniciamos a descida às 04:55min sem ter avistado as famosas Torres del Paine!


Com um baita frio e a chuva castigando sem trégua, cheguei exausto ao acampamento, onde cuidei de colocar minha última roupa seca e me jogar dentro do saco de dormir. Acordei horas depois com o moral devastado. Praticamente todas as minhas roupas estavam molhadas, o tempo estava péssimo, a previsão era ruim, suspeitava que minha comida não seria suficiente e, para piorar, sofria com uma enorme bolha no pé. 
Ainda me restava praticamente a volta inteira do parque, pois a subida ao mirante, de 23km ida-e-volta com 650m de desnível, fora "apenas" uma perna dentro do circuito "O". 
Cozinhei uma de minhas rações diárias e tentei ler um pouco. Estava péssimo. Um desânimo me ocupava a cabeça ali no principal acampamento do parque. Ver outras pessoas terminando uma árdua jornada que você está prestes a iniciar não é nada motivador. Já havia sentido isso em minha expedição ao Aconcágua. Minha vontade era acordar no dia seguinte, desmontar minha barraca e seguir para o conforto da cidade, tomar uma cerveja e dormir em uma cama quentinha. Por coincidência, lia a página em que Joe Simpson diz:

"Òu donc étaient passées cette motivation et cette passion à toute épreuve? 
Comment avais-je perdu ce sentiment d'invincibilité, 
cette confiance inébranlable de la jeunesse qui déborde de
testostérone et manque d'imagination?"
Joe Simpson - La Mort Suspendue

À tarde, uma discreta aparição do sol foi suficiente para secar minhas roupas. Mesmo assim, fui dormir desmotivado.
O dia 02 de dezembro amanheceu fechado, mas seco. Chequei meu relógio e percebi que havia dormido bastante. Já era meio dia. Preparei meu café e desmontei calmamente minha barraca. Sentia-me renovado. Organizei minha mochila, zerei o GPS, conferi o mapa e, decidido, dei continuidade ao trekking que havia planejado meses antes. 
Percorri quase 14 quilômetros até chegar ao Acampamento Serón. Nesse trecho, passei por dezenas de pessoas de todas as partes do mundo. Jovens, casais, adolescentes e até idosos. Um exemplo!
Próximo ao Acampamento, juntei-me a um jovem casal que caminhava em um bom ritmo. Era um alemão e uma indiana. Foi curioso ouvir os dois discutindo suas culturas e respectivas incompatibilidades. 
Num determinado momento da conversa, eles perguntaram a minha idade e de onde eu era. Respondi que era do Brasil e que tinha 42 anos. A jovem indiana, um pouco incrédula, virou-se para o alemão e sussurou:
- I didn't know people that age could trek this trails alone!   
Dei uma risada interna e segui me divertindo com os dois.
À noite, já em minha barraca, no relativo conforto de meu saco de dormir, escutava a algazarra que algumas jovens chilenas faziam no acampamento. Ao lado, um grupo de americanos exibia suas conquistas pessoais anteriores. Um pouco mais ao fundo, o alemão e a indiana discutiam quem levaria a barraca no dia seguinte. Uma verdadeira torre de Babel em meio às Torres del Paine!     
No dia seguinte (03/12/16), acordei cedo e logo arrumei as tralhas, pois seria o dia mais longo da viagem. Percorreria 18 quilômetros até o Acampamento Dickson e mais 11 até meu destino do dia, o Acampamento Los Perros. Já no início da trilha, encontrei o alemão e a indiana. Pelo que pude ver, o alemão acabou carregando a barraca e "otras cositas más"...  

Com um dia nublado e frio, segui em um bom ritmo. Caminhei trocando boas ideias com um chileno até chegar ao Acampamento Dickson, onde ele ficou. Devorei um pequeno lanche e segui rumo ao Acampamento Los Perros. A partir do Dickson, inicia-se a ascensão à parte mais alta do trekking (1200m, no passo John Gardner), ponto que eu planejava cruzar no dia seguinte, se o tempo permitisse. 


Às 19h30min, avistei o belo glaciar que marca as proximidades do Acampamento Los Perros. Estava bem cansado e com muito frio. Sentia-me sujo. Foi difícil aguentar, mas tive que tomar um banho nas gélidas águas do degelo.  
Quando a noite caiu, consultei o termômetro: 5º C. 
Sozinho, embaixo de inúmeras camadas de roupa, eu tentava dormir, mas a dúvida em relação ao tempo no dia seguinte, quando deveria atravessar o passo, me deixava inquieto. Se o tempo não permitisse (muito vento e frio), eu seria obrigado a aguardar uma janela de tempo bom, o que atrasaria meu cronograma e diminuiria minhas reservas de comida. Sem contar que aquele era o acampamento mais frio do parque!


Consultei o mapa a fim de ver minha evolução e me espantei ao perceber que me encontrava no lado oposto às Torres. Era nítido. A linha imaginária riscada no terreno do parque por onde eu já havia passado formava um semi-círculo. Eu andara quilômetros sem perceber. A viagem atingira um ritmo próprio. As coisas estavam realmente fluindo...
Nublado e com pouco vento, o 04 de dezembro seria o meu quarto dia no parque. Iniciei minha ascensão rumo ao passo usando três camadas de roupa. 
Fazia frio, mas com 15 minutos de caminhada morro acima fui obrigado a tirar uma camada. Começava a sentir calor. Mais 30 minutos e mais uma camada. Com duas horas de subida e vestindo apenas uma camiseta, encontrava-me próximo ao passo (1200 metros), onde a exposição às condições climáticas me mostrou que era hora de vestir novamente as camadas retiradas. Tira casaco, põe casaco, tira casaco, põe casaco!
Quando cheguei à parte mais alta da travessia, o céu estava totalmente encoberto. Desse ponto eu havia calculado avistar o gigante glaciar Grey. Um pouco decepcionado em não poder ver nada, segui descendo em direção ao outro lado da montanha. 
Alguns metros abaixo, fui surpreendido por uma das visões mais espetaculares que tive na vida. À medida em que descia, as nuvens se dissipavam e o gigante glaciar aparecia. Sentia como se estivesse adentrando um outro mundo, um mundo em que a minha pequenez era escancaradamente notável. Parei, observei, suspirei, agradeci e murmurei: "Não somos nada mesmo!"              



Quanto mais eu descia, mais as nuvens se dissipavam e mais eu me espantava com o visual do glaciar. Já na parte coberta por vegetação, encontrei um chileno (Juan) que, também, admirava incrédulo o Grey em meio à copa das árvores. Continuamos a descida expondo nossas razões pessoais para estar ali. Após eu contar que conhecer o local era um desejo antigo, Juan disse que havia juntado uma grana, largado o trabalho e iria passar um tempo viajando pela América do Sul. Perguntei se havia tirado um ano sabático e ele respondeu ,negando:
- No. un año no. Cinco años! O más...
Sujeito interessante. Juan era arquiteto e aparentava não se importar com suas vestimentas surradas pela viagem que fazia. Garantia o sustento de seus "anõs sabáticos" construindo edificações com materiais naturais, como o adobe e o bambu. Tirei uma foto de Juan no meio da descida e segui rumo ao Acampamento Grey. Foi a primeira e última vez que o vi. Tento imaginar onde ele pode estar.
Do Acampamento Grey, eu teria apenas mais dois dias de caminhada até o ponto onde havia iniciado o trekking. Contudo, à noite, no acampamento, fui informado sobre a queda de uma ponte sobre um grande rio do parque.
Por conta disso, se eu quisesse finalizar o trekking completo, eu teria que pegar um catamarã no Acampamento Paina Grande e depois tomar um ônibus até o Acampamento Central (de onde eu havia iniciado cinco dias antes), e, de lá, fazer um bate-e-volta até o ponto onde a ponte caíra. Isso me custaria um dia de atraso. Meio abalado pela notícia, lembrei-me do desânimo que havia passado nos primeiros dias e de como uma boa noite de sono havia resolvido tudo.  
Dormi e, no dia seguinte, minha motivação estava intacta. Olhando o lado bom, o desvio "forçado" me proporcionou uma perspectiva diferente do parque. Do catamarã, rumo ao Acampamento Central, sob um céu azul tal qual o de Brasília na época da seca, eu clicava em minha máquina o impressionante contraste dos "Cuernos" com os tons de azul do céu e do lago Pehoé.  
Aos 06 de dezembro, de volta ao acampamento Central, segui para o lado oposto que iniciara seis dias antes. Percorrendo a parte mais turística do parque, cruzei inúmeros "backpackers". Após ser declarado patrimônio da humanidade, o fluxo de turistas se tornou intenso no parque. 
Contabilizados 16 quilômetros, cheguei ao Acampamento Francês, onde montei minha barraca para minha última noite no parque.
No dia seguinte, após visitar os famosos Vale Francês e Mirador Britânico, iria fazer o trajeto de volta até a entrada do parque e, finalmente, retornar à civilização". 
Porém, como havia chegado cedo ao acampamento e o dia estava belíssimo, resolvi não esperar o dia seguinte para subir até o mirador. Não queria correr o risco de pegar o tempo fechado. Com uma mochila de ataque contendo algumas barras de proteína e meio litro de água, subi leve e rápido até o mirante do Vale Francês. Seguindo por uma perfeita trilha em meio à típica vegetação da região, foi inevitável dar uma trotadinha morro acima. 

Lá em cima, onde a trilha acabava, havia alguns blocos de pedra de onde pude apreciar o surpreendente visual do vale. Inúmeras torres de pedra agrupadas em forma de uma ferradura delimitavam o Vale Britânico. Uma verdadeira obra da natureza.
Deitei-me sobre um platô de pedra aquecido pelo sol, que já se punha. Olhei ao meu redor e me dei conta de que estava completamente isolado de tudo, sozinho. Completamente extasiado, apreciava aquele belo ecossistema, do qual eu tinha plena consciência de que não fazia parte. 
O dia limpo, sem vento e de temperatura confortável mascarava a real condição da região. Creio que o clima na Patagônia concede alguns poucos momentos de recreio para nós. Ciente disso, agradeci mais uma vez por estar ali.  

De volta ao acampamento Francês, dormi um sono tranquilo. Eu estava completo, íntegro. A viagem estava quase no fim. Ao acordar, iria desmontar minhas tralhas pela última vez e seguir em direção ao Acampamento Central, onde eu entraria no tão esperado ônibus, finalizaria meu devaneio e retornaria para minha zona de conforto. Voltaria para a minha rotina. 
Que gratidão! 
Retornar é tão bom quanto partir.  
Cronograma:
01/12 - 1º dia  Camp. Central - Mirador Torres - Camp. Central 
Dist: 23 km
Tempo: 6h
Asc: 650m

02/12 - 2º dia  Camp. Central - Camp. Serón 
Dist: 13,7 km
Tempo: 2h45'
Asc: 220m

03/12 - 3º dia  Camp. Serón - Camp. Los Perros 
Dist: 31,9 km
Tempo: 6h49'
Asc: 825m

04/12 - 4º dia  Camp. Los Perros - Camp. Grey 
Dist: 17,9 km
Tempo: 5h07'
Asc: 929m

05/12 - 5º dia  Camp. Grey - Paina Grande - Camp. Central (transporte)
Dist: 12 km
Tempo: 3h30'

06/12 - 6º dia  Camp. Central - Mirador Britânico - Camp. francês 
Dist: 35,8 km
Tempo: 7h44'
Asc: 1752m

07/12 - 7º dia  Camp. francês - Camp. Central
Dist: 16,7 km
Tempo: 3h46'
Asc: 559m

Agradecimentos:

"Viajar es desaparecer, una incursión solitaria por una apretada linea geográfica hacia el olvido".
El Viejo Expresso de la Patagonia
Paul Theroux