segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Transmantiqueira - bike de Juiz de Fora a Atibaia




“...Certo ou errado até
A fé vai onde quer que eu vá
Oh! Oh!
A pé ou de avião...

Mesmo a quem não tem fé
A fé costuma acompanhar
Oh! Oh!
Pelo sim, pelo não...

Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá...”

Andar com fé
Gilberto Gil

Está lá no Wikipédia: “fé é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia ou fonte de transmissão”.
Ao se conhecer os problemas e detalhes envolvidos em uma viagem de bike, torna-se difícil depositar na fé a responsabilidade do sucesso. Apesar de ter crescido em uma família extremamente católica, sempre fui adepto ao ceticismo.
A lógica sempre me convenceu, até o dia em que passei meu primeiro sufoco voando de asa delta. Engolido por uma nuvem a mais de dois mil metros de alturta, sem saber para onde era a terra e para onde era o céu, segurava firmemente a barra de controle da asa e rezava para sair daquela turbulência sem fim.
Foi assim que aprendi a ter fé. Em inúmeras ocasiões que o domínio da situação fugiu do meu controle, lá murmurava eu: “Deus me livre”, “Iemanjá que me ampare”, “Deus que óia!”. Apesar de não ser adepto de uma religião específica, sempre identifiquei na natureza uma energia diferente. Uma força pulsante sem explicação. E é aí que se encontra a minha fé.
Quando pensei em cruzar toda a extensão da Serra da Mantiqueira de bike, além de um detalhado planejamento, precisei de fé, diga-se: precisei aderir de forma incondicional à possibilidade de transpor toda aquela cadeia de montanhas pedalando com absoluta confiança na ideia.
 
1º dia 24/09
Juiz de Fora – Taboão
Dist: 107km
Asc: 2405m
E assim parti. Em Juiz de Fora, acompanhado pelo amigo Guilherme Gonçalves, iniciei a interminável série de sobe-e-desce morros. Zerei o odômetro às 11h00min do dia 24 de setembro deste ano. Havia estipulado uma rota de 540 quilômetros até a cidade de Atibaia. Da partida até a chegada, a ideia era percorrer uma média de noventa quilômetros por dia, parando para pernoitar nas aconchegantes cidadezinhas encrustadas nos vales da Mantiqueira. No primeiro dia, percorremos 107 quilômetros até a cidade de Taboão. 
Passando pela Serra do Funil, contemplando o belíssimo visual, com a lenta progressão morro acima, sentimos o que nos aguardava. A Mantiqueira nos dava as boas vindas! Fora o fato de termos saído tarde, o exigente percurso nos atrasou a chegada. Já sem a luz do dia, despencamos a última descida em direção a Taboão. Havíamos reservado um quarto na pousada da Dna. Joaninha. Na entrada da cidade, iluminada pela luz de um poste, uma mulher acenava para nós. Descartei a possibilidade de ser a Dna. Joaninha, mas, ao me aproximar, ouvi:
- Oi! Sou a Joaninha. Venham por aqui. A pousada é logo ali.
Faminto, sujo e cansado, agradeci a ela pela recepção e a indaguei onde poderíamos comer. Inacreditavelmente, ouvi de Dna. Joaninha que nosso jantar já estava preparado. Não podia ser! Tudo o que sonhávamos.
Tudo parecia perfeito até que Dna. Joaninha nos mostrou nosso quarto. Em minha imaginação, um lugar sujo, asqueroso, claustrofóbico e desconfortável é um cativeiro de sequestro, sendo que o quarto que Dna. Joaninha havia selecionado para nós era uma categoria abaixo. Com 4 m², sem banheiro, sem ventilação e todas as paredes mofadas (sou extremamente alérgico), não havia outra opção, senão ter fé que não seria tão ruim. Passei a noite em claro com uma toalha úmida no nariz a fim de minimizar a crise de espirros. Após uma breve cochilada, fui despertado por uma baratinha que dividia a cama comigo. O cansaço era tal que apenas pedi licença para a nojenta e dormi a meia hora que precedia o raiar do dia. Ao acordar, arrumei as tralhas na mochila e pedi a conta para Dna. Joaninha. Sorridente, ela disse:

- Fiz um preço especial para vocês. Paga R$150,00 cada um que tá bom!
- Tá bom pra quem Dna. Joaninha? Resmunguei.
Admitindo o malogro da situação, pagamos e seguimos viagem.     



2º dia 25/09
Taboão – Bocaina de Minas
Dist: 77,2km
Asc: 1963m
Com menos de um quilômetro, nos deparamos com uma subida longa e íngreme para saudar o dia! A cada curva da maldita subida, fazendo uma força do cão e rangendo os dentes, eu enxergava a imagem de Dna. Joaninha acenando!
Após 12 quilômetros, paramos em Itaboca a fim de conhecer a cachoeira do Boqueirão da Mira; um belo corte na pedra por onde passa o rio. Saindo de Itaboca, mais sobe e desce! Pegamos um pequeno trecho de asfalto entrando em direção a Passa Vinte, mas após cinco quilômetros retornamos para a terra “escalando” uma rampa interminável. Saímos de 800 metros e só paramos de subir na cota 1250, numa lapada só! Mantivemos nossa rota pedalando mais vinte quilômetros por esta cota. Os quinze últimos quilômetros do dia foram despencando até Bocaina de Minas.

3º dia 26/09
Bocaina de Minas – Passa Quatro
Dist: 91km
Asc: 1926m 
Às 10h50min do dia 26 de setembro, partimos em direção a Passa Quatro. Após Santo Antônio do Rio Grande, subimos pelo vale até a cota 1500. Fé nas pernocas! Mantiqueira pura. Visual de tirar o fôlego. Baixamos até 1300 metros, até a comunidade de Monte Belo, onde paramos para lanchar. Com a energia reposta, voltamos a queimar as pernas subindo novamente até os 1550 metros, de onde, enfim, despencamos até Itamonte. Nesta cidade, paramos para comer de novo. 
Em frente à padaria, deitado no chão com o bucho pra cima, eu tentava digerir os quatro pães e os dois copos de caldo de cana que acabava de devorar, quando um senhor magro de cabelos brancos discretamente me cutucou e perguntou:
- Ooopa! Cêis tão viajando né? Óia, do jeito que tem morro por aí, vô dá uma dica pro cêis fazê as currva mió!
Sentado em sua Caloi Berlineta ano 1972, Seu Lázaro explicava empolgadíssimo como não perder o controle em uma curva fechada!
- Vai virando o guidão devagarim, e aí cêis dá uma biliscadinha no frei traseiro e decha a rabeira deslizar um cadim. Só num pode perdê o controle, tem qui tê fé...
Atento aos ensinamentos de Seu Lázaro, eu percebia que a fé, mais uma vez, marcava a sua presença na viagem.
Para chegar a Passa Quatro, onde dormiríamos, passamos paralelamente à crista do trekking mais famoso do Brasil: a Serra Fina. Passa Quatro fica encrustada no vale do rio homônimo, e do alto tivemos a oportunidade de apreciar a bela, organizada e pacata cidade. Meu amigo Tatá, em outra oportunidade, havia se hospedado com o saudoso Dentinho e a querida Tati por lá, e com propriedade me sugeriu um belo lugar para esticar as costas. No Hostel Casarão, a Tia Doca nos recebeu como filhos. Comunicativa como todo bom mineiro, Tia Doca nos contou toda a história do velho casarão. Trabalhava há quarenta e cinco anos no local, desde quando o Casarão ainda era uma casa de família. Sugerido por Tia Doca, fomos experimentar uma cerveja artesanal da cidade, o que serviu para intensificar o sono que chegava. 

4º dia 27/09
Passa Quatro – Delfim Moreira
Dist: 52,9km
Asc: 1714m 
Aproveitando o aconchegante colchão, perdi a hora e, mais uma vez, atrasamos a partida. Para esquentar as pernas, já no começo do dia, pegamos uma subida de 13 quilômetros, ganhando 900 metros de altura só nesse trecho. Finalizamos o martírio a 1640 metros de altitude. Apesar do esforço hercúleo, o visual foi compensador. É inacreditável a vista da cordilheira da Mantiqueira. Foi possível avistar com clareza a Pedra da Mina e os picos do Itaguaré e dos Marins, famosos na cordilheira.
Descemos para Marmelópolis (1200 m), onde recuperamos um pouco de nossas energias com um “balde” de 700 ml de açaí cada um. Desta cidade até Delfim Moreira, nos restavam vinte quilômetros. Achando que seria tranquilo, equivoquei-me. Uma “parede”, logo na saída da cidade, nos levou a 1400 metros de altura.
E então, após um pequeno trecho plano, por um vale, voltamos a escalar. Uma longa subida de mais ou menos dez quilômetros serpentando as montanhas nos catapultou até os 1700 metros. Paguei um ano de pecados. Incrédulos com o tanto que havíamos subido, observamos o outro lado da montanha. Fatigados, mas felizes, descemos quinhentos metros por uma estradinha sinuosa entre pequenas fazendas no vale até chegar a Delfim Moreira.
Como havíamos chegado relativamente cedo, resolvemos fazer uma faxina nas bikes. Procurando por um local onde limpar as correntes, passamos em frente a uma oficina de carros (JC Centro Automotivo) e, explicando o que procurávamos, o proprietário, Juninho, mantendo a boa tradição de acolhimento mineiro, nos emprestou querosene e abriu suas instalações para que pudéssemos dar um banho nas magrelas. Ficaram como novas!
Na pousada, após um merecido banho, foi a vez de faxinar o armário. Afinal, era o quarto dia de viagem. Lavei as roupas e reorganizei os suprimentos que ainda tinha. Pronto! Tudo estava em dia e preparado para continuar. Que viesse a temida subida para Campos do Jordão!

5º dia 28/09
Delfim Moreira – Campos do Jordão
Dist: 63,8km
Asc: 1354m 
A saída que havia estipulado em minha rota contornava a bela igreja da cidade e subia em meio a um enorme vale em direção à divisa dos estados de Minas e São Paulo. Apesar de não ter religião, aproveitei a passagem pela igreja para recarregar minha fé. Afinal, a subida seria longa!
No percurso que fazíamos, a divisa de estados era marcada pela entrada no Horto Florestal da cidade de Campos do Jordão. Nesta região, as araucárias tomam conta da belíssima paisagem. Da divisa até a cidade, seriam 30 quilômetros de descida. Mas, como nada é de graça, logo na entrada do Horto, a chuva que era esperada para o dia despencou. Uma puta chuva de granizo a 1800 metros de altitude em um dos locais mais frios de São Paulo. Ave Maria! Foi foda! Fé inabalável...
Apesar do frio congelante, a cena era bonita; o chão coberto por bolinhas brancas, o barulho do granizo batendo no capacete e no anorak e a floresta de araucárias encoberta por neblina. Depois de dez minutos, havia um rio de lama na trilha. Por conta disso, a pastilha do freio traseiro foi-se embora. Tentava me manter em equilíbrio na interminável e gelada descida administrando a frenagem da bike com o freio dianteiro e um leve toque no traseiro, da mesma forma como havia me ensinado Seu Lázaro. Após uma hora de martírio, chegamos à casa do Ivan Pires, onde tomei um banho quente e colocamos as coisas em ordem antes de bater um bom e produtivo papo com meu amigo de corrida de montanhas.
 

6º dia 29/09
Campos do Jordão – São Francisco Xavier
Dist: 63,9km
Asc: 1019m 
Eu precisava descansar. O frio, a chuva, o acúmulo da viagem, tudo havia me deixado exausto. Por conta disso, dormi demais e saímos somente ao meio dia. Na casa do Ivan, havia me empanturrado de carne na noite anterior, e, creio que por isso mesmo, acordei me sentindo mal. Logo na primeira subida do dia, o enjoo e a fraqueza me derrubaram! Ainda assim, segui tocando, pois o cronograma era apertado. Descemos de Campos até Sapucaí Mirim por uma antiga estradinha de terra. Em Sapucaí Mirim, sentindo-me muito fraco, resolvi almoçar. A única opção era um self service “sujão” que havia na praça. Não era a coisa mais sensata a se fazer, mas fiz um pratão ali mesmo. Finalizando o almoço, deitei no banco da praça para fazer a digestão. Vinte minutos depois, acordei de um sonho meio louco e voltamos aos pedais. Na saída da cidade, percebi algumas nuvens negras se formando no alto dos morros por onde passaríamos. Em meio à subida, me dei conta de como continuava fraco. Creio que estava com uma virose. Pedalei devagar e suando frio, contando cada quilômetro. No final da subida, paramos em um boteco na estrada e tomei uma coca para ver se aliviava o enjoo. E então a chuva nos pegou. Com a água caindo, o frio somou-se ao enjoo e à fraqueza. Nada agradável. Uma hora depois, com muita fé, chegávamos a São Francisco Xavier, aonde cheguei ensopado e sem sentir os dedos dos pés.

7º dia 30/09
São Francisco Xavier - Atibaia
Dist: 99km
Asc: 2381m

Para o último dia de viagem, havia a previsão de chuva forte. O tempo amanheceu fechado e frio. Saímos às 11h00min sem saber o quanto pegaríamos de chuva. Não obstante as pernas doídas e cansadas devido ao acúmulo dos dias, eu me sentia melhor em relação à virose. Passamos por um trecho de floresta belíssimo entre São Francisco Xavier e Joanópolis. Com quarenta quilômetros, apesar da previsão e das nuvens negras em nossas cabeças, ainda não havíamos nos molhado. Estávamos fugindo da chuva; algumas gotas começavam a cair, colocávamos o anorak. Mais à frente e sem chuva, tirávamos o anorak. Ameaçava chover, anorak novamente.  O tira e põe capa de chuva seguiu o dia inteiro. Exercitando minha fé, criei um mantra pessoal a fim de trocar uma penitência por outra. “Frio sim, chuva não, frio sim, chuva não”, eu seguia mentalizando. E deu certo. Chegamos anoitecendo em Atibaia sem termos nos molhado.
Logo que entramos na casa de meu amigo Cristian Fuchs, a água despencou pra valer. Que alívio! Sentia dor em tudo que era canto, mas a viagem tinha acabado.
A Mantiqueira havia sido conquistada. Ou lembrando Sir Edmund Hillary:
“It is not the mountain we conquer, but ourselves”
Sentirei saudades das montanhas, das intermináveis subidas, das casinhas simples perdidas em meio aos vales, dos amigos que me acolheram em suas casas e, sobretudo, de pessoas como o Seu Lázaro, que conseguem nos cativar e alegrar em meio a encontros incertos e casuais. Por diversas vezes na viagem, em lugares completamente inusitados, deparei-me com inúmeras manifestações de fé; um pequeno oratório em meio a uma subida, uma charmosa igrejinha no topo da montanha ou um terço pendurado na cerca da estrada. A crença no impalpável segue por todo lugar. A fé vive, ou melhor, a fé faz viver. 
        
“...Certo ou errado até

A fé vai onde quer que eu vá...”




segunda-feira, 9 de outubro de 2017


Foi realmente marcante. A baia de águas calmas e verdes, as montanhas no horizonte, as pedras como calçamento, as construções antigas e a refrescante sombra da árvore em que eu esperava por meu pai. Sentado em um banco de pedra em frente ao fórum de Paraty, eu assimilava as novas impressões. Eu tinha dez anos de idade e era a primeira vez que visitava Paraty. Meu pai havia sido intimado como testemunha a fim de depor sobre um colega de trabalho que havia sido preso por consumo de maconha. Nos anos 80, isso era gravíssimo.
Ewerton Ralf Florenzano, o “Tom”, passara no mesmo concurso que meu pai e, com ele, trabalhou por pouco tempo na Assessoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Extremamente inteligente (totalmente fora da curva!), carismático e simples, o Tom caíra de paraquedas no serviço público. Seu habitat, definitivamente, não era em uma sala fechada redigindo projetos absurdos para deputados sem-noção. Mas assim quis o destino. O Tom viera do Rio de Janeiro e frequentava assiduamente a casa dos amigos feitos na Câmara. Tom vivia em outro mundo, inclusive quando estava na casa dos amigos. Era comum perguntar sua opinião sobre algo e ter que esperar um “tempinho” pela sua atenção. E, então, Tom finalizava a discussão com argumentos inquestionáveis.  
Em minha infância, meu pai me estimulava a montar aeromodelos complicadíssimos que nem mesmo ele conseguia. A solução dos dilemas de montagem vinha junto com as visitas do Tom. Ele analisava as plantas e, apontando o dedo, sussurrava:
- Acho que é por aqui hein...
Pronto. O avião estava montado!

Amante de jipe e da vida outdoor, não ligava para os trajes que vestia. Costumava entrar nas dependências da Câmara dos Deputados vestindo sandálias de couro e camisas surradas. Era um hippie por exclusão. Certa vez, subindo o Morro do Pai Inácio, na Bahia, sofreu uma queda e se quebrou todo. Após meses de recuperação das diversas fraturas, retornou ao trabalho. Sorrindo para os colegas de sala, nem se deu conta de que lhe faltavam todos os dentes da frente.
- Nada de mais. Quando der eu arrumo, disse ele.
Do Tom herdei meu primeiro relógio digital. Um precioso Casio que até cronômetro tinha. O querido Tom se suicidou com um tiro no queixo em uma ensolarada tarde brasiliense. Era esquizofrênico. Apesar de menino, senti uma enorme falta daquele “adulto” com alma de criança.


Muitos anos depois, lá estava eu, de frente para a baia de Paraty, um pouco mais maduro, mas não menos admirado pela beleza e envolvimento do local. Exatamente às 12h00min do dia 29 de agosto deste ano, após alocar todos os equipamentos e víveres dentro de meu caiaque, eu deixava pela popa a Marina do Farol. Pegando a ondulação de nordeste, remei contra até me abrigar atrás da Ilha do algodão. Já no saco do Mamanguá, o vento me empurrou e, rapidamente, cheguei aos pés do Pão de Açúcar, onde montei minha barraquinha. Já à noite, descansado do dia, fiz meu jantar enquanto discutia psicanálise com três trekkeiros que por lá também acampavam. Só Freud explica!     
Finalizava o primeiro dia de viagem com meu caiaque. A ideia era chegar a Maresias/SP seis dias depois.

O segundo dia amanheceu ensolarado fazendo um pouco de frio. Saí às 08h00min a fim de evitar ventos mais fortes no decorrer do trajeto, pois iria bordejar as pontas da Cajaíba e da Joatinga, locais expostos e sensíveis em relação à navegação com embarcações como a minha.
Peguei vento contra até a ponta da Cajaíba. Ao contornar este promontório, a ondulação e o vento ficaram favoráveis. O caiaque seguia surfando bem! Registrei boas velocidades. Por vezes 9 km/h nas vagas. Parei na Ponta da Joatinga para analisar o lado oposto da pequena porção de terra. O mar estava perfeito. Comi algumas bisnaguinhas e segui viagem. Aproei em direção à praia de Martim de Sá, onde lanchei e descansei um pouco. Senti o ombro direito. Seguindo a remada, parei paralelamente à Ilha Cairuçu por alguns minutos e alonguei os braços. O mar batia muito próximo ao costão, mas depois de contornar a Ponta Negra, as coisas melhoraram. O mar acalmou, mas não meu ombro. À noite, abri o kit de primeiros socorros e iniciei uma cartela de anti-inflamtório. Aportei na Praia do Sono e procurei um camping no lado esquerdo da praia (onde a arrebentação era menor) para facilitar minha saída no dia seguinte. Havia a previsão de mudança de tempo para a quinta-feira e, diante disso, o futuro de minha remada era incerto.


Ao acordar no dia seguinte, preocupado com as condições meteorológicas, fui olhar o mar e percebi que a frente fria (vento sul) havia chegado, como previsto. Ainda assim, julguei prudente partir e analisar o mar no decorrer da remada. Porém, finalizando de acomodar as tralhas dentro do caiaque, o vento aumentou de intensidade e deixou o mar muito crespo e mexido.
Pensei melhor e decidi abortar a remada do dia e aguardar que as condições melhorassem. O lado negativo do descanso forçado foi que perdi um dia de reserva dos que havia programado. Aproveitei para contemplar um pouco a vida dos moradores locais.
Sem sinal de celular, tive a grata oportunidade de "provar" a tranquilidade da Praia do Sono. Lá, todos se conhecem e se cumprimentam. Como era dia de semana, pude, realmente, participar da rotina deles. No camping em que fiquei, o Sr. Orlando terminava de fixar as ripas do "puxadinho". Sempre de olho em novos turistas que frequentam a praia. Já no mercadinho da vila, onde almocei, Dna. Gertrudes finalizava de por a mesa carregando um de seus netos no colo. Contrariada, a criança só pensava em andar pelo quintal. Sugeri a Dna. Gertrudes que deixasse a criança solta. Fitando-me como se fosse lógico, ela explicou:
- É que esse menino não dá sossego às galinhas!
- Entendi, disse.

No quarto dia de viagem, parti às 09h25min com o tempo fechado e chuvoso. Levei quase trinta minutos esperando uma brecha na arrebentação para sair. As condições não eram as melhores, mas as direções da ondulação e do vento ajudaram no início da remada.
Ao passar por Trindade, o mar ficou mais crespo e mexido. Remada tensa e aspecto geral desanimador. Mantive o foco para equilibrar o caiaque em meio a um turbilhão de ondas desconexas. Apesar de tudo, a progressão seguia veloz. Acabei surfando várias ondas que me apanhavam pela popa. Creio que fui empolgando e perdendo um pouco da concentração.    
Ao entrar no estado de São Paulo, a condição do mar piorou. Remaria, a partir de então, paralelo a um costão de pedras por cinco quilômetros. Em condições de mar grande, não é o melhor local para se remar, pois a reverberação da ondulação que bate nas pedras se choca com novas ondulações que vêm do oceano, formando um verdadeiro “liquidificador” de caiaques.
Encontrava-me na metade do trecho de costão, e, por um descuido na navegação, derivei para perto das pedras, quando o caiaque ganhou velocidade encaixando em uma ondulação e, ao mesmo tempo, recebeu uma marola do lado esquerdo. Pego de surpresa, o que eu não desejava aconteceu: o caiaque virou!
Tudo aconteceu muito rápido. Quando percebi, eu estava com a cabeça voltada para o fundo azul do Oceano Atlântico. Antes mesmo de pensar em fazer o rolamento (procedimento em que o remador desvira o caiaque sem mesmo sair de dentro dele), eu já procurava a alça da saia que permite que o cockpit do caiaque fique estanque. Tentei manter a calma, puxei a alça e ejetei-me para fora do cockpit. Quando pus a cabeça fora d'água e respirei, me perguntei: E o remo? Por sorte, ele estava perpendicular ao caiaque. Desvirei o caiaque, coloquei o remo dentro do cockpit, procurei por qualquer equipamento que estivesse boiando e iniciei os procedimentos de auto-resgate. Dentro d'água e paralelo ao caiaque, peguei a bomba e iniciei a retirada da água de dentro do cockpit. Ocorre que o mar estava muito mexido e o trabalho se tornava em vão toda vez que uma marola maior cobria o caiaque e enchia novamente o barco. Com muito custo, tirei um pouco da água. Fui tentar subir de volta no caiaque e o cockpit encharcou novamente. Imaginei, então, que se não conseguisse esvaziar o caiaque, teria que nadar para a margem. Porém, a margem era só pedra e mata fechada por cima. Não havia como se safar por ali. Sabia que estava sozinho e que só eu poderia resolver aquela situação. Procurando manter a calma, reiniciei os procedimentos de auto-resgate. Equilibrei-me em uma das bordas do caiaque, com as pernas por baixo dele. Com movimentos decisivos, bombeei a água quase toda pra fora do cockpit. Como o mar estava muito mexido, foi difícil evitar que mais água retornasse para dentro. Guardei a bomba, calculei um movimento brusco e certeiro e puxei meu tronco para cima das bordas do cockpit do caiaque. Com muita cautela, passei uma das pernas para o outro lado do caiaque (como em um cavalo). Viria, então, a parte mais complicada; colocar-me para dentro do cockpit em meio àquele mar turbulento. Sentei dentro do cockpit com as pernas para fora do caiaque, e, vagarosamente, passei as pernas para dentro. Esse procedimento é relativamente fácil de realizar em condições normais, mas imagine fazer tudo isso em meio a um mar de ressaca com ondas de quase 2 metros. Adicione um céu cinza escuro, tempo frio, água a 18 graus Celcius e nenhuma ajuda a menos de cinco quilômetros (por água!). Foi assim mesmo.   
Reorganizei os equipamentos dentro do barco e continuei a remada. A partir de então, sempre tenso com a possibilidade de uma nova capotada. Quicando de uma onda para outra junto de meu barquinho, alcancei a praia de Cambury, onde pensei em encerrar o dia. Contudo, a arrebentação do local não iria me permitir zarpar no dia seguinte, e, diante disso, tomei a difícil decisão de continuar remando naquele mar tenebroso até uma praia abrigada. Por longos quarenta minutos, negociei com as ondas a cada remada até cruzar a ponta de Picinguaba, onde finalmente, com mar mais protegido, relaxei. Segui até a ilha de Prumirim, local onde me acolheu o Seu Ismael (dono do bar que lá funciona). Ouvindo atento à situação que eu acabara de passar, Seu Ismael arregalou os olhos e comentou: “Nossa! Você remou com a lestada?”.
Fui entender depois que a “lestada” era o famoso vento leste que entra (quase sempre muito forte) na região complicando as condições de navegação. Recompondo-me do susto, agradeci por ter finalizado o dia naquela pequena ilha. São e salvo!


No quinto dia de viagem, tomei um café reforçado, despedi-me de Seu Ismael e zarpei rumo a Ubatuba. O mar, apesar de grande, estava “navegável”. Com o vento favorável, passei batido por Ubatuba e segui em direção à Ilha Anchieta. Contudo, logo antes da Ponta Grossa, o mar encrespou, exigindo atenção redobrada a cada remada. Uma capotada ali daria uma baita canseira para resolver, como eu já sabia. Imaginei que, passando a Ponta Grossa, o mar ficaria mais calmo. Só que não! O mar continuou mexido e com grandes vagas. Um pouco nervoso, decidi que o melhor a fazer seria remar mais cinco quilômetros até um ponto protegido. Finalmente, quando cruzei o través da Ilha Anchieta, as coisas começaram a acalmar. Resolvi “baixar âncora” na praia do Lázaro e naquela baia finalizar meu dia de trabalho. 

 
Tendo como base a condição do mar dos dias anteriores, não sabia o que esperar para os últimos trechos. Saí para o sexto dia de remada às 09h00min com tempo bom. Abrigado na baia da praia do Lázaro, remei tranquilo por cinco quilômetros. No decorrer da primeira hora, observei que, apesar de grande, o mar não estava mexido nem crespo como antes. Animado com o bom tempo e as condições favoráveis, decidi iniciar a travessia para Ilha Bela na frente da praia do Simão, um pouco antes do planejado. Essa passagem seria a mais exposta de toda a viagem. Aproximadamente duas horas remando a dez quilômetros da costa. Qualquer problema nesse trecho, eu teria que me virar só. Era praticamente impossível ser avistado da costa.
Além do quesito segurança, o fator motivacional foi crucial nesse trecho. Longe da costa, sem referências, tem-se a impressão de não sair do lugar quando se rema. A fim de motivar-me na travessia, dividi o trecho em três partes. A cada parte, parava para me hidratar, comer e conferir a progressão no mapa. Alguns atobás ajudaram a quebrar a monotonia do dia. Dando rasantes na proa de meu caiaque, esses pássaros me divertiram um bocado.
Sem perceber, pisei a Ilha às 15h00min.
Ainda que me restasse um dia de remada para finalizar minha viagem, a sensação de conquista de meu projeto era palpável. O pior havia passado, com certeza.
Em Ilha Bela, gentilmente convidado pelos amigos Alessandro Matero e André, deixei meu caiaque na guarderia Proa, uma das mais organizadas e profissionais instalações que conheci para esse fim.  
Com condições perfeitas, no último dia de viagem, zarpei às 11h40min. Poucos quilômetros me separavam da praia de Santiago (vizinha a Maresias), local onde finalizaria minha viagem. Refletindo sobre os últimos dias, segui remando pelo canal de Ilha Bela. Dias difíceis, dias tranquilos, chuva, sol e experiências impagáveis. Apesar de alguns momentos de tensão, a viagem havia sido bem sucedida. O que mais eu poderia desejar?
Sim, havia uma coisa.
Avistando a areia onde desembarcaria, desejei que todas as crianças tivessem um “Tom” para influenciá-los.



 



1º dia 29/08/2017
Paraty - Saco do Mamanguá
Dist: 22,3km


2º dia 30/08/2017
Saco do Mamamguá - Praia do Sono
Dist: 40,8km


3º dia 31/08/2017
Tempo ruim – Descanso Praia do sono

4º dia 01/09/2017
Praia do Sono - Ilha de Prumirim
Dist: 38,8km


5º dia 02/09/2017
Ilha de Prumirim – Praia do Lázaro
Dist: 31,4km


6º dia 03/09/2017
Praia do Lázaro – Ilha Bela
Dist: 44,3km


7º dia 04/09/2017
Praia do Lázaro – Ilha Bela
Dist: 22,2km

Agradecimentos:
Proa guarderia
Seu Ismael (Ilha Prumirim)
Zé Caputo
Tiago (barco Gladiador-Paraty)